É surpreendente como não aceitamos, ao menos sem uma explicação coerente o que nos acontece, só o DNA não basta. Mergulhamos na nossa vida revivendo emoções, olhando com um pouco mais de distanciamento, óbviamente existe uma distorção imensa nessa viagem, muitas coisas jamais serão lembradas neste processo, aparecerão em um dia qualquer, quando estivermos distraídos.
Março 22, 2007
Zonas cinzentas
Eu estava falando sobre algumas situações, que resolvi chamar de zonas cinzentas, e de que forma elas parecem apenas confirmar, que mais cedo ou mais tarde era inevitável a explosão cerebral que se seguiria. Hoje ao lembrar das aulas de Anatomia Patológica, coisa que acho fundamental para entender essa profissão, acabei me lembrando de que no básico, não senti nenhuma dificuldade de adaptação, eu estava com 19 anos, meus pais que eram classe média alta tinham virado classe média baixa, e isso já vinha acontecendo alguns anos, eu sabia que tinha que passar para uma Federal, se quisesse estudar medicina, estudei um bocado e entrei.
Lá dentro a não ser por algumas coisas meio teatrais ou rídiculas mesmo, não senti muita dificuldade. Acabei lembrando e não sei quem me deu essa dica, descobri que tínhamos um Psiquiatra ou Psicólogo só para os alunos. Apesar de não estar pertubado em nada com a faculdade, eu o procurei e tivemos várias conversas, todas muito interessantes, não sei quando parei, mas acredito que durante uns 6 meses ia lá ao menos quinzenalmente, e ás vezes semanalmente. De alguma forma eu intuía alguma coisa, tentei me antecipar, foi em vão, acredito que talvez me sentisse só, me correspondia com meu pai e falava com a minha mãe pelo telefone. Nos finais de semana ia para Niterói onde conhecia mais gente. e a vida seguia.
Normalmente eu estava mergulhado nos meus livros, ou em filmes imperdíveis.
Hoje eu diria que talvez eu esteja vivendo um momento de paz (em relação à patologia em si), uso medicamento de forma regular e no ùltimo ano foi acrescentado uma medicação que fez uma clara diferença, melhorou os 15% que faltavam.
Uma sombra sempre te acompanhará, para sempre?
Hoje tenho sentimentos extremamente contraditórios às pessoas que fizeram parte da minha história, é complicado (” O inferno são os outros “-Sartre), eu acabei ficando perdido, buscava qualquer forma de afeto, e de alguma maneira eu não sentia reciprocidade, hoje com um pouco de tristeza percebo que o meu melhor amigo de infância era o meu maior inimigo, a coisa em si é totalmente coerente, mas quando penso nisto, acho que mantive sua amizade para neutralizá-lo, e nem sempre conseguia.
Se não fosse uma patologia tão grave o que vivenciei, se não tivesse sido tão díficil ver a luz do sol de novo, se não tivesse havido um esforço sobrehumano para me manter vivo, uma doença que te anula, dilacera, te arranca em pedaços, muda tua vida , te limita, eu diria esqueçam, vocês moram todos no meu coração, desculpo meu pai pelo DNA, agora aos outros lamento, vou fazer parte da história da vida de vocês, de uma forma inesquecível, marcarei elas para sempre.
Canção de ninar
Tanta dor me espanta,
fico mudo, silencioso
espanto a tristeza
pura ilusão
Punhais rasgam meu peito
eu busco você inutilmente
vida maldita vida
sinto falta da sua voz
Uma canção de ninar?
Não sei,
Hoje posso dizer
Deus me deixou sem pai nem mãe
E no seu lugar multiplicou
a minha dor.
Culpa
Quero fugir de dentro de mim.
Quero sair deste horror a mim imposto.
Tenho de carregar,às costas,esta negação,
este não aceitar torturas que me dilaceram e mutilam.
Corro para as ruas desertas,para cidades desertas e escuras,
viajo atormentado nas pinturas de Munche
nos poemas de Poe…
Agarro minhas têmporas e corro, fujo, de mim,
para as florestas da noite
ou para alguémque me abrace forte,
que me abrace muito e me diga suaves e me prometa suaves.
Preciso de mãosque me perdoem.
Não sei…
Só que me perdoem de minhas ancestrais culpas…
De: João Costa Filho
Peter pan
Longe, bem longe em algum lugar,
Onde se possa dizer não que é longe ,
mas é inalcançável, estou eu e
minha sombra,
ela não me deixa sair del á,
eu por sua vez nem tento,
ela hoje é mais esperta
tenho que achar uma criança
uma criança qualquer,
mas principalmente
aquelas que sabem colocar
a sombra no seu devido lugar.
Depressão em adolescentes
Li ontem um artigo na NEJM ( New England Journal of Medicine) sobre o trabalho de médicos americanos sobre depressão infantil, e em adolescentes, o que mais incomoda é saber que de repente estes trabalhos por aqui não serão lidos, afinal não são clínicos.
Todo adjetivo é pouco para qualificar o trabalho retrospectivo, e os possíveis obstáculos que são encontrados no tratamento dos adolescentes, o levantamento familiar e o suícidio entre adolescentes se tornando a terceira causa de morte nos USA.
O laço familiar – leia-se DNA cada vez mais como importante parte da doença.
Espero que leiam, os meus queridos colegas, já não estou achando esse desconhecimento todo uma falta de interesse, já estopu pensando que é fuga mesmo.
In Extremis
Não esperem que eu fique indiferente
Tão pouco que eu seja condescendente,
Não esperem perdão,
Sou incapaz de perdoar
Ando cansado, do diferente tão igual
De pessoas que cumprem o seu papel
E qual é?
De peça acusatória se transformar em
defesa
Falo aos ventos, escrevo para analfabetos
Esqueci que o ler depende do sentir
Ando com saudade das nossas conversas loucas
Nada em relação à você foi obrigação
Foi amor e admiração
As pessoas olham o seu túmulo
De repente se tornam ofendidas
Sentem -se mal, deveriam permanecer assim o resto da vida.
Passou, não passou o aperto no meu peito.
Almas vendidas são insensíveis
só reconhecem o tilintar das moedas
logo irão respirar melhor, logo
sem nenhum sentimento, este
é o sentido delas…o tilintar alegre
dos assassinos.
A mim só me resta comentar
sem lamentar.
Viajante
Já não me bastam as viagens
Através das lembranças
Que se tornam pálidas com o tempo
Sofrem o efeito de medicamentos
Não distingo entre o real e o imaginário,
Quanto acrescentei de sombras ?
Quanto acrescentei de cores e luz?
Fragmentos apenas, nada é pleno
Só a dor exerce sua força.
Me pergunto quem sou? Quem fui?
Jorram imagens surrealistas, nada de concreto
Me deixo levar por vidas que não vivi, coloridas,
ricas de riso e alegria.
Vidas que tanto quero, tanto quis
Não me foi permitido, mergulho nos
sonhos
E vou atrás delas, viajando, lembranças
efêmeras,
Que irei saborear depois, me vingando do
meu destino.
Março 23, 2006
A espantosa ode a São Francisco de Assis
1
Meu são Francisco de Assis, Francisco de Assim, poverello, ou como te chame a sabedoria dos povos e dos homens
Este é Vinicius de Moraes, de quem se podia dizer – o poeta – se jamais alguém o pudesse ser depois de ti.
2
Este é o impuro, o inconstante, o trágico, o leproso e possivelmente o morto
Que vem a ti o fiel, o calmo, o humano, o constante.
3
Este é o que sacrifica a vida pelo prazer da hora, e se desgraça
Que vem a ti que sacrificaste a vida pela eternidade e pela graça.
4
Este é o homem da mulher, o homem da carne, o homem da terra
E que te ama santo da Mulher, santo da Carne, santo da Terra.
5
Este é o que peca e não se arrepende, o supliciador e o criador do espasmo
E que te exalta irmão humilde e louco, confidente, e inventor do êxtase.
6
Este é o mágico do desespero, o inquisidor e o sedutor, o poeta triste
Que te proclama o rei, entre todos, amante sem mácula.
7
Meu são Francisco de Assis! acolhe teu amigo e teu criado
Que partiu para sempre e se perdeu, e nunca mais foi encontrado.
8
Tenho um mistério a te dizer, mas quem sabe não o ouvirias
Vendo-me criança – se é que eu fui criança um dia!
9
Ó dá-me teu sorriso, são Francisco, e me purifica
E liberta-me da vã palavra de sonho que me impurifica!
10
Eis que converti meu demônio a mim e meu anjo a mim
E me sinto demais em mim mesmo e quisera me despedaçar em ti.
11
Porque me sinto covarde de não poder dormir e precisar fechar a porta
Ao vento frio ou ao chamado sombrio da pureza morta.
12
És tu um dom da minha miséria e serias o mesmo
Se eu fosse como tu mesmo? – e te proclamaria?
13
E [...] porque amo a miséria em mim que me deposita em ti
Porque não fosse eu sombra não serias sol nem pensarias em mim.
14
E [ ... ] porque aceito minha depravação e faço a minha queixa sem piedade
E de todos tenho piedade menos de mim – e não há salvação para minha piedade
15
Sou digno como o animal nobre que morre em silêncio e sem lágrimas
E não tem limbo ou purgatório, céu ou inferno para a sua alma.
16
Mas sou impuro como a terra que recebe a consumação da carne
E astuto como o fogo e plástico como a água.
17
Meu são Francisco, ouve o meu voto e compreende o meu vazio
E me aquece do frio, e me protege do sonho sombrio.
18
Tu és a Palavra – a palavra inexistente – a poesia
Que eu busco sem tréguas, que busco de noite e que busco de dia.
19
Não creio em Deus mas creio em ti – Deus é minha melancolia
Tu és minha poesia – ou quando não seja o amor que ela se deseja
20
Tenho o lar e tenho o mar, e nada tenho
Tenho a emoção – tenho-a? – nem pranto mais blues.
21
Na verdade muitas coisas eu tenho, e muita razão de ser feliz
Se não existisses talvez – mas exististe, São Francisco de Assis!
22
És a infância não vivida, és a mocidade não merecida
És tudo de justo feito injusto pela catástrofe da vida.
23
Ninguém o sabe senão tu – nem mesmo eu sei! nesse momento
Meu pensamento é tédio mas amanhã pode ser contentamento.
24
Porque há em mim uma fonte pura de mal que me embriaga
De bem, mas que subitamente me estanca o que me falta.
25
É a mulher, essa que me suporta e que me acaricia
E a quem acaricio, e a quem eu rio e que se ri.
26
Não fosse ela, e eu estaria como Jó te mentindo,
Porque o poeta é a semente da mentira se, no desespero, só.
27
Dou-te meu voto além da mulher! é a criança que te fala
Quando subitamente se conheceu menino no grande silêncio de uma sala.
28
Quando brincando com o próprio sexo o surpreendeu sensível
E o viu inteligente e emocionado e não compreendeu.
29
E que criou sozinho a primeira forma nua para o prazer contemplativo E que se deu a ela desvairado do mistério de se saber vivo.
30
E que a transportou na memória em amor e que foi traído
Pelo toque de outra mão menos pura e mais desmerecida.
31
E que foi seviciado antes do sêmen pela desventura
Feito mulher, e a perdoou, e a amou, e a fez sua criatura.
32
E que foi iniciado nos prazeres da carne como o inocente aprendiz
A quem a mulher diz – Faz! e ele faz, tal como eu fiz.
33
Antes do sêmen! e não morri – e bela fiz minha criatura
Eis por que não há salvação e eu amo a minha degradação e impostura.
34
Porque eu sou o sedutor, se seduzido, e o erótico, se seviciado
E o amante, se querido, e o perdido, se privilegiado.
35
Porque fazemos um – eu e a mulher – e não há dois arrependimentos
Para um só corpo – nem duas salvações para um só sentimento.
36
E se alguém não vem comigo eu não quero ir, porque não sou sozinho
E se eu fosse sozinho não estava nesse momento clamando de ti
37
Meu são Francisco de Assis! ouve tu ao menos a minha inefável miséria
Sem perdão e sem consolação e sem fim nos caminhos da Terra.
38
Ouve o apelo mais íntimo, o que não está nas minhas palavras
E que está no meu ser infeliz e no ser infeliz que eu crio à minha passagem.
39
O santo, o herói e o poeta – três penitências do mundo
Tu, santo, herói e poeta – uma penitência em mim.
40
Nunca te verei no céu, nem nunca me verás no inferno
Mas hei de te escutar no estio, e tu me escutarás no inverno.
41
Não me verás no céu porque não há paixão para a serenidade
Nem no inferno porque não há castigo para a fatalidade.
42
Mas eu te escutarei aqui na Terra, entre as grandes árvores
A cabeça no seio da amiga, e a quem eu falo como ao pássaro.
43
Um dia deixarei a cidade da minha angústia e sua torre
E irei a Assis entre colinas me abandonar à tua saudade.
44
E dá-me nesse dia de chorar todas as lágrimas contidas
E de me perder em mim o pranto e de me ajoelhar no teu sepulcro.
45
Ó grande santo louco, meu irmão, taumaturgo em minha alma
Taumaturgo – palavra que contém silêncio e que me acalma!
46
Just now I have been in a [ ... ] party in the Magdalen’s cloister
And there was an Armenian [ ... ] all the others.
47
Good inocent peopte [ ... ] some liquor in their rooms
But was a bloody phantom between them, so help me God!
48
Eu sou o conhecimento perfeito das coisas e dos homens
Linchai-me! eu sei todos os segredos, e eu me abandono.
49
Nunca criatura criada foi tão pagã como eu, so help me God!
Arrastando meu ser à execração e à contemplação quieta da morte.
50
Em vão te direi – ou não? – porque não vens beber meu vinho
Na minha mesa, e poderíamos falar com mais carinho.
51
São Francisco de Assis! meu irmão, meu único inimigo
No céu, eu te maldigo, eu te bendigo. Eu me persigno!
52
Tive uma jetatura: a mulher; uma aventura: a poesia
Uma desventura: a delicadeza. Sou delicado, não peço, mendigo!
53
Mendigo: mendigo o pão de meus pais, o amor de meus amigos
Mas só a mulher me persegue e só à mulher eu persigo.
54
Santo! tenho gana de te dizer: foge de mim! evita o meu contato escuro
Porque eu sou puro na maldade e puro na sinceridade e impuro.
55
Quatro livros escrevi – e sou tão moço! e nada compreendo de mim
Senão que sou cruel com a mulher, e que minha angústia não tem fim.
56
Fui buscado, também. Buscou-me a sociedade, o anfitrião
E eu fui mendigo em meu salão e me desprezei e disse não.
57
E me mandaram a Oxford, e eu disse não, e vi jovens viscondes
Que temeram meu pudor, e eu disse não, e me persigno!
58
Tudo é magia! Lembras-te? o silêncio fantástico das noites
E a alma bêbada de emoção? e nenhum pouso.
59
Ah, que a vida não tem solução. Muitos o disseram em vão
E o direi em vão, e morrerei, e os que me virem, sorrirão.
Vinicius de Moraes
Março 17, 2006
Dor
“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”
William Shakespeare (Muito barulho por nada).