Li ontem um artigo na NEJM ( New England Journal of Medicine) sobre o trabalho de médicos americanos sobre depressão infantil, e em adolescentes, o que mais incomoda é saber que de repente estes trabalhos por aqui não serão lidos, afinal não são clínicos.
Todo adjetivo é pouco para qualificar o trabalho retrospectivo, e os possíveis obstáculos que são encontrados no tratamento dos adolescentes, o levantamento familiar e o suícidio entre adolescentes se tornando a terceira causa de morte nos USA.
O laço familiar – leia-se DNA cada vez mais como importante parte da doença.
Espero que leiam, os meus queridos colegas, já não estou achando esse desconhecimento todo uma falta de interesse, já estopu pensando que é fuga mesmo.
Março 22, 2007
Depressão em adolescentes
Março 15, 2006
Viver?
Muitas opções que fazemos nesta louca tentativa de permanecer, mesmo sem o prazer que conhecemos em outra época muitas vezes me parece extremamente contraditória, e é muitas vezes uma escolha difícil, a angústia que perpassa seu coração que numa crise depressiva grave é imensa, embora sabendo que muitas vezes soa tudo repetitivo, a intensidade dessas crises são diferentes e a duração é sempre longa por menor que seja, mas neste momento eu estava diante da mais difícil crise que eu havia passado, tinha emagrecido mais de 10 quilos, e permanecia assim, eu não tinha nenhum momento de sossego, embora as manhãs, ou o que o meu relógio biológico determinasse que fosse manhã fosse insuportável, todo o dia estava contaminado por uma sensação de
angústia, que não cabe em palavras, a esperança em qualquer chance de recuperação ia paulatinamente embora, eu olhava e só via o vazio, imenso, uma dor intensa, uma vontade de não mais existir. Eu vinha mantendo a dose de benzodiazepínicos, sem aumentar nada ou acrescentar qualquer medicação.
Eu já estava muito assustado por tudo que vinha passando, nada mais me importava, qualquer coisa de novo era mais assustadora para mim…não pense que algo não pode ficar pior, pode e fica.
O suicídio era uma possibilidade cada vez mais concreta.
E aí entram vários fatores que determinam a não concretização do mesmo, você esta exausto para tudo, até mesmo para um ato desta natureza, já se sente um zumbi (um morto – vivo), há pessoas que te amam, e você vai explodir o mundo delas. E também sua formação religiosa.
E há um texto de que gosto muito a propósito: “Ser ou não ser”, uma fração de Hamlet carregada de sabedoria …(que pode ser encontrado abaixo).
Março 14, 2006
Normalidade
Depois de algum tempo vivendo durante tempestades, algumas leves e outras tormentas de maior impacto, esse conceito desaparece. Tudo o que se quer é acordar, olhar o mundo de uma maneira menos enevoada, tentando caminhar com alguma claridade sem uma tristeza permanente acompanhando todos os nossos passos, gasta-se muito com isso, energia, dinheiro, vida que se perde, e quando você pensa que está livre,nada.
Haverá sempre uma névoa sobre os seus olhos, de alguma
maneira tudo está contaminado pelo seu humor, as horas de pura claridade serão a exceção na sua vida.
E aí você filosofa, onde está , e o que é normal?
O que é afinal uma doença tão estranha que mexe desta maneira com suas emoções, provoca alterações neuroquímicas no seu cérebro, é influenciada geneticamente, e pelo ambiente em que você vive.
Diferente de todas as patologias que você conhece , ela influencia o seu eu, ou seja o seu ser; por maior que seja o convívio com a depressão, as armas que você adquire neste convívio nada amigável nunca serão suficientes.
Não há uma maneira de entende-la, e como às vezes precisamos disto. O cérebro vem sendo cada vez mais estudado no alvorecer deste século, resta saber se nos trará respostas ou mais perguntas.
“De perto ninguém é normal.”
(Caetano Veloso)
Março 13, 2006
Tentando escapar
Numa busca por qualquer tipo de melhora, apesar de todo meu ceticismo, você busca outras formas de terapêuticas alternativas.
E em muitas pessoas isto acaba funcionando, nem que seja temporariamente, o efeito placebo de determinados medicamentos alternativos pode ser duradouro, porém acaba. Não consegui nenhum benefício com este tipo de terapêutica, talvez minha forte formação baseada em evidências, tenha dificultado qualquer resposta. Conversava com meu médico frequentemente, porém não me sentia nada estimulado a aumentar a medicação ou usar outros antidepressivos. Comecei terapia analítica, com uma excelente profissional, mas saía de lá com minha ansiedade potencializada, não há como mexer no passado, nesta loucura de sentimentos.
Compulsivamente comecei a ler tudo sobre o assunto, gravava poucas coisas, e certamente não possuía discernimento para selecionar qualquer coisa, e cada vez mais ia piorando minha situação. Armadilhas que a mente tece com tanto capricho não são desfeitas com facilidade.
Eu ia caminhando para navegar sobre um mar em fúria…
Março 11, 2006
Uma armadilha comum
Embora pareça uma contradição o desenvolvimento de fobias a antidepressivos não é tão incomum, mesmo que haja um ganho real na qualidade de vida, que não era o que acontecia comigo, nas doses habituais. Os efeitos colaterais não são agradáveis, embora tenham diminuído bastante com as últimas gerações de antidepressivos. A náusea talvez seja um dos mais comuns, se você já não come, isto acaba reforçando negativamente o medicamento, uma vez que ele precisa de tempo para agir, cerca de 3 semanas na maioria das vezes, e às vezes os efeitos colaterais são bastante incômodos.
Além de cefaléias freqüentes, diminuição da libido, e às vezes uma sensação desagradável de mudança nem sempre positivas em relação às suas emoções, mas o mais perturbador é que ele acabava potencializando a ansiedade que eu já sentia, tornando insuportável a manutenção da medicação, eu parava muitas vezes sem completar uma semana tamanho os efeitos desagradáveis que sentia, hoje quando olho para trás percebo nitidamente uma armadilha da própria doença na minha fobia a medicamentos, e tudo isto contribuiu para que o tempo de sofrimento fosse maior, quando estamos no olho do furacão não dominamos praticamente nada.
Romper com a fobia aos medicamentos foi um processo lento, mas fundamental na minha recuperação, mas ainda ia demorar algum tempo.
Março 10, 2006
Quando acontece
Durante algum tempo as recaídas foram previsíveis, guardam um certo padrão, não era o caso quando aconteceu em Novembro de 93, foi inesperada, dolorosa, não respondi ao aumento da droga, neste momento fiz uso de tríciclicos que relatei anteriormente, e apresentava mini episódios de pânico quase diários . O pavor nunca é pequeno, a sensação continua desagradável mesmo com essa denominação, para mim era certa a relação entre estes mini episódios e os tríciclicos, fato que comprovamos quando ele foi suspenso um mês depois, e se não obtive uma melhora no humor em si, os episódios se espaçaram, e trouxeram um certo alívio. A depressão tem destas coisas, você não responde a uma droga hoje, e algum tempo depois sabe-se lá por que você começa a responder. Só que nesta altura dos acontecimentos eu resolvi não usar mais antidepressivos, não aumentar benzodiazepínicos, que a vida tomasse o seu rumo, a fobia se espalhava para todo lugar, envolvia alimentos, e agora envolvia medicamentos. Comecei a estabelecer rituais para tudo, incorporando um comportamento compulsivo que não existia inicialmente. Até então eu sempre visitava meus pais, tentei conversar com a minha mãe a respeito e a reação dela foi a pior possível, afinal tinha vivido a mesma coisa com meu pai, mas eu não conseguia mais viajar, para falar a verdade tudo era insuportável para mim, qualquer ato por menor que fosse envolvia um gasto de energia extremo. Já havia deixado de ler, parei de ver filmes, que eram coisas de que gostava, enfim, meu raio de ação se estreitava cada vez mais, e lá ia eu mergulhando em direção ao fundo do poço. Tentei convencer meu médico que eu era um sério candidato para ECT ( EletroconvulsivoTerapia), ele foi derrubando meus argumentos com extrema facilidade. E eu não aceitava mais medicamentos, a fobia era intensa.
Março 8, 2006
Dupla inseparável
A dor de aceitar, e permanecer vivo durante grandes episódios de depressãoe/ou ansiedade é imensa, a ansiedade é extremamente perigosa, ela te mata por que é literalmente insuportável, você acaba se sedando, e logo depois vem a depressão intensa, pelo menos comigo foi assim uma dupla inseparável: crises de pânico e posteriormente depressão, que te paralisa, te joga em algum lugar parecido com o inferno, mas você não tem forças para nada, não come, não consegue engolir, o embotamento mental é surpreendente, você tenta ler algo e não compreende, lê de novo e nada.
O desejo de não existir, porque nada você já é, só que você não tem forças, dorme um sono patológico, a sensação de ressaca não te deixa, a escuridão e a solidão são suas companheiras.
Tudo isso para dizer que quando senti a ansiedade controlada, meu alívio foi imenso, há meses eu não sabia o que era isto, e a equação lógica para mim é que controlando uma
(a ansiedade) controlávamos a outra.
E de fato assim foi a vida retornou seu ritmo quase normal, a não ser pelos comprimidos que usava diariamente, o que absolutamente não me incomodava, houve uma certa sonolência no início, mas que passou rápido.
Voltei para meu trabalho, ia levando a vida normalmente, quando em novembro de 93, comecei a sentir alguns escapes de ansiedade, coisa pequena, uma sensação desagradável aqui, outra ali, eu já nem pensava muito nisto, e aí mora o perigo.
Eu estava em uso de uma medicação diária, com uma resposta que eu qualificaria de excelente, e novamente o mundo desabou…
Março 7, 2006
Enfim resultados
Desde nossa última experiência com medicamentos, que foi negativa, meu médico prescreveu um antidepressivo associado a um ansiolítico que apresentava como característica ser uma droga conhecida por ter ação em crises de pânico.
Era provavelmente início de 1993, fevereiro ou março (minha primeira consulta foi em agosto de 1992), eu não consigo manter uma cronologia, só tendo acesso à minha ficha para saber exatamente.
O fato é que por uma destas questões do acaso, não encontrei o antidepressivo, comprei o ansiolítico, e fiz uso conforme foi prescrito, e eu não estava preparado para o que vinha a seguir, uns 15 ou 20 minutos depois , eu senti pela primeira vez desde que o mundo tinha desabado sobre minha cabeça, uma sensível diminuição da minha ansiedade, de cerca de 80%, eu já ficava imaginando o que não conseguiria com uma dose maior, assim que pude liguei para meu médico e relatei o fato, o entusiasmo dele foi tão grande como o meu, enfim tínhamos um resultado extremamente positivo, ele insistiu que eu fizesse uso do antidepressivo, e eu relutei e cometi meu primeiro ato de rebeldia, para que se estava tão bom assim?
Não me recordo se estava de licença de meu trabalho, acredito que não, eu vinha era faltando muito.
Bem fui autorizado a aumentar a medicação, entrando sempre em contato com ele, e a ansiedade reduziu em cerca de 90%, com uma dose 4x maior que a dose inicial.
Retomei minhas atividades plenamente.
Parecia que tudo estava terminando.

