É óbvio que em um momento destes você como médico, e tudo isto aconteceu numa sexta-feira, dia que todo mundo some, voce acaba tendo algumas vantagens, o melhor cirurgião que conheci naquela época trabalhava nas Forças Armadas, como médico civil, e graças ao meu bom relacionamento com todo o pessoal, consegui que ele fosse liberado do plantão para fazer a drenagem do meu tórax, na verdade é um procedimento simples na sua essência (ainda vou colocar uma figura por aqui), mas faz diferença a experiência eu conhecia alguns colegas cirurgiões toráxicos, mas optei pelo cirurgião geral, a drenagem foi um sucesso, eu teria que ficar com o dreno talvez por uns 3 ou 4 dias mais, até que todo ar fosse drenado, parece como uma mangueira no seu torax, dançando lá dentro, uma dor insuportável, acho que no dia acordei o andar todo de tanto que eu berrei, sem vergonha nenhuma.
Dois fatos marcaram este acontecimento, meu irmão caçula esteve lá me visitando, seu segundo filho tinha nascido naqueles dias, e foi uma coisa que me emocionou muito.
Naquela semana meu pai apareceu para me ver, eu já estava em casa, e ele não conseguiu conversar muito, estava assustado, apesar de tentar tranquiliza-lo, ele ficou uns vinte minutos comigo, e as lágrimas vieram. É interessante apesar de termos tido a vida inteira uma relação especial, como falar de meu pai me toca. Sei que cada pessoa é única, não há outra igual.
Mas quando ele morreu eu me lembro que ao escrever sobre a morte dele no jornal da cidade, foi essa palavra que usei, que àqueles que tiveram oportunidade de conviver com ele, conheceram uma pessoa incomum, única.
O pneumotórax me levou ao médico por tabela, iríamos começar uma odisséia. Parei de fumar . Engordei 12 kilos em 3 meses, movido pela necessidade oral e pela ansiedade.
Outubro 22, 2005
Médico no hospital
Outubro 21, 2005
Sem tréguas
Quando você passa por uma experiência desta natureza, os acontecimentos não te dão muita trégua, eu já disse que usando de automedicação, fugi do médico por um ano, ou seja da minha realidade que eu achava que podia enganar, mas pequenas coisas vão se juntando ao seu cotidiano, sintomas vão se tornando companheiros, falsos epísódios de pânico te enganam,
a ansiedade suportável torna-se parte do seu dia a dia. E aí as coisas parece que conspiram contra você, um dos hospitais em que trabalhava ficava a uns 50 kilometros da minha casa, eu pegava o frescão, e descia bem próximo a ele, num destes dias em que você não valoriza nehum sintoma porque afinal tudo é ansiedade, a vida faz das suas.
Quando entrei no frescão senti uma dor na coluna toráxica, que pouco a pouco foi ficando insuportável, pedi ao motorista que se encontrasse algum ônibus ou táxi voltando me avissasse, nada, fui até o fim e não apareceu ninguém, cheguei ao Hospital cheio de dor subi a escada até o 2 andar e ao chegar ao final ,mal conseguia respirar a dor aumentava de intensidade, demorei uns 5 minutos para voltar a minha frequencia respiratoria normal, habitual .
O que estava acontecendo? Eu me auscultei, ambos os pulmões, e na maior calma possível diante da situação percebi que o pulmão esquerdo simplesmente não tinha ausculta, não era funcionante, hipotese mais provável um pneumotórax, situação em que bolhas pulmonares estouram e trocam ar com ambiente comprimindo o pulmão como um fole.
Liguei para minha esposa, expliquei em parte o que estava acontecendo, e que precisava que ela fosse me buscar. Durante todo este tempo fiquei quietinho encostado num leito hospitalar.
Quando ela chegou, tomei coragem e fiz um Rx tórax que demonstrava um pneumotórax esquerdo total, eu não estava errado, terapeutica: drenagem cirúrgica. Tínhamos que estar mais perto de casa e não tinha muito tempo para fazê-lo, quando mais cedo a drenagem é feita maior o sucesso, até então eu era fumante há 20 anos.
Outubro 20, 2005
A tentativa analítica
Nesta tentativa de compreender o que torna tão explosivo e incontrolável uma doença desta natureza, você vai procurar auxílio, e começa a fazer terapeutica analítica numa tentativa de ajudar a terapeutica medicamentosa.Não posso reclamar da profissional que encontrei era uma pessoa doce, excelente profissional. Mas acontece que você já está extremamente ansioso, e mergulha nos acontecimentos da sua vida, dolorosos ou não e durante o nosso relacionamento, minha ansiedade só fez crescer, você lida com o passado que não pode mudar, a dor advinda desta busca, porque o olhar muda conforme o tempo, nada produziu de positivo, creio que minha ansiedade aumentou sensivelmente com o decorrer da terapeutica, até que resolvi interrômpe-la. Voltamos novamente para os medicamentos, aos quais eu respondia parcialmente e por muito pouco tempo, e muitas vêzes eu achava que estavam aumentado o meu nível de ansiedade, eu estava pouco a pouco me tornando fóbico aos antidepressivos. Não posso de forma nenhuma afirmar que a terapeutica analítica não tem o seu lugar na terapeutica da depressão, só penso que o meu nível de ansiedade era intenso, e não seria remexendo as feridas que eu iria chegar lá, talvez até chegasse, mas me faltava tempo para isto, eu precisava achar outra saída.
“Uma realidade não é mais o que era quando era – não pode ser reconstruída” Milan Kundera.
Outubro 19, 2005
A genética do ser
Biologia não é destino, mas o DNA é importante nas doenças comportamentais.
Talvez seja cedo para falar disto nesta que se torna uma leitura desconexa para quem não a viveu. Meu pai sempre, desde que me entendo por gente teve episódios de pânico, frequentes quase se tornaram banais para a família, “fazia” parte dele, não sei porque meu olhar foi diferente, ou quando percebi isto, porque excetuando isto meu pai era uma pessoa extremamente comunicativa, mas fóbico ao extremo, viver com essa contradição deve ter sido extremamente díficil para ele. Filho de “pai rico”como ele mesmo dizia, não conseguia ir em frente em nada, quiseram fazer de uma pessoa extremamente sensível um comerciante, jamais poderia dar certo. Os episódios de pânico do meu pai começaram na adolescência, ele nasceu em 1928, durante muito tempo não havia uma medicação sequer para ser utilizada, após o início dos anos 60 eu me lembro que estivemos algumas vezes em Campos, com algum psiquiatra famoso do local, eu devia ter menos de 10 anos. Nada o aliviava. A vida continuou, e a família fingia que não via as esquisitices de cada um naquela casa tão querida. Meu pai era extremamente dependente da minha mãe, quando apresentava esses episódios, e eu não posso culpá-la por querer descansar de vez em quando. Em um destes episódios de férias de verão, meu pai pediu que ficasse com ele pelos menos alguns dias, enquanto minha mãe viajava com meus irmãos, eu cedi sem nenhum problema, eu deveria ter nesta época 15anos, e abri mão de ir para qualquer lugar, havia decidido ali que ficaria o tempo que minha mãe ficasse ausente.
Ali estabelecemos uma relação única de amizade, respeito e admiração que iriam pontuar nossa vida, e que sinto falta após sua morte.
Um ano depois meu pai encontrou um médico que iria mudar sua vida. Os primeiros antidepressivos triciclicos davam o ar da sua graça, e foi através de um deles, que meu pai foi pouco a pouco em um prazo de 3 ou 4 meses se vendo livre de seus sintomas, desenvolveu após a dose plena um quadro de mania, descobríamos ali que meu pai tinha uma doença bipolar, tendo convivido com alguma coisa de hipomania até sua morte (quadro leve controlado de mania). Mas apesar dos estragos que a doença fez ao longo tempo, ele era outra pessoa, aos 38 anos encontrou um medicamento para uma doença que o atormentava desde a adolescência.
Terminou sua vida como professor de Estudos Sociais, algo em que era extremamente bom , e sabia muito, era um apaixonado pela História.
Nós criamos laços especiais, amigo, filho, pai, cada um assumia sua forma de acordo com a situação.
Durante o convívio com meu pai, presenciei o preconceito, a intolerância, o estigma que sofre uma pessoa com uma patologia desta natureza, hoje apesar de todo o conhecimento são poucos os que conseguem lidar com essa realidade, é extremamente interessante perceber como as pessoas não reconhecem em si as doenças que parecem odiar nos outros.
Outubro 18, 2005
Ser diferente
Quando você se percebe tão diferente, como a mais comum das tarefas para você é extremamente complicada, você vai estabelecendo aos poucos rituais para uma coisa tão simples como fechar uma porta. Você começa a se excluir de qualquer grupo social, isto quando ainda consegue pertencer a algum. Para alguns a maior ambição é receber o reconhecimento dos seus pares, e tudo que você quer é passar desapercebido, a sua maior ambição é ser normal, num mundo, em que provávelmente isto já não existe. Você escuta do amigo que te ama que você é brilhante, no sentido de brilhar mesmo, e você não entende nada. Como? Se a escuridão vem se aproximando cada vez mais rápido, e você não consegue impedir.
A maior parte do tempo em que voce se desespera é em busca de um mínimo de normalidade, uma rotina na sua vida, que não seja essa, e muito tardiamente você vai descobrir que você é diferente, que pode se adaptar inclusive a essa rotina, mas vai perceber que também você é capaz de executar muitas coisas de forma diferente, e que talvez esssa dolorosa trajetória seja necessária para nascer o que há de especial em você.
Outubro 17, 2005
Olhando para trás
Quando você olha para trás através da sua vida, você percebe que a teia que te engolirá foi tecida há muito tempo, e pelas pessoas mais queridas, pais, irmãos, amigos…você percebe que não foi ouvido, você é acusado das coisas mais espatafúrdias…na verdade isso só é perceptível ao longo do tempo, ali está sendo plantado o seu isolamento, a sua tristeza, sua baixa autoestima.
A minha tendência para desenvolver uma doença desta natureza, psiquiátrica ou comportamental certamente foi detonada por uma série de acontecimentos durante minha adolescência, todos sentem saudades da adolescência, acredite eu não, foram forjadas as experiências dolorosas, o sentimento de que afinal, eu era meio invísivel para grande parte das pessoas com quem convivia (incluo com pesar meus pais, irmãos) a maior parte do tempo, básicamente você não é respeitado, é manipulado por qualquer um porque tudo em você pede por amor, afetivamente é interessante observar como pessoas tão diferentes agiram da mesma forma . Em tudo há um outro lado, e parece que ao escrever isto fui um adolescente que vivia chorando por tudo, longe disso, sem querer , adquiri uma espécie de liderança entre meus amigos, a inteligência fazia a diferença, eu era ávido por conhecimento, numa pequena cidade de pouco mais de 20.000 habitantes, se tanto. Da biblioteca da cidade eu já havia lido tudo que interessava, o meu outro mundo foi a biblioteca do meu avô, e lia e não compreendia e continuava lendo, os livros sempre me salvaram, e isso será importante no futuro. Aos 15 anos eu bebia e muito, numa cidade opressora eu estava caminhando para um alcoolismo precoce. Mas eu vivia intensamente, amava intensamente, a emoção era o meu viver. A minha relação com as pessoas da minha faixa etária estavam perfeitamente dentro do padrão normal, eu diria até intensa, querida, amada.
Dias destes conversando com meu médico e irmão, eu lhe descrevi a sensação de que um dos antidepressivos que estava usando desencadeava, uma sensação extremamente desagradável em relação às minhas reações diante de acontecimentos que antes me emocionavam, eu sentia uma total indiferença, bem fui obrigado a trocá-lo, o que de certa forma achei ótimo, apesar de ser mais um na lista, bem isso é outra história.
Creio que foi ali no ambiente da adolescência que se teceram os primeiros fios da teia que me aprisionaria.
Outubro 16, 2005
Sim ou não
Necessito fazer um intervalo nesta história que acho extremamente importante, fui médico das forças armadas, aprendi a limpar, retirar as peças de uma arma , limpá-las e montá-las.
Mais, aprendi a atirar . E aprendi que na minha melhor posição de tiro eu não errava uma.
Todas as balas acertavam na mosca. Jamais gostei de armas, e nem convivendo com elas consegui ter qualquer apego às mesmas. Já fui assaltado duas vezes, em assaltos que duraram mais do que o habitual, tive calma o suficiente na hora para lidar com a situação, e em um grupo agir de forma calma o suficiente para que a integridade de ninguém fosse atingida, apenas argumentando. Nessa ocasião eu já havia apresentando “flashs”de ansiedade.
Mas o que viria seguir mais tarde, era incontrolável, e se eu tivesse uma arma dentro de casa, eu creio que poderia ter me matado, em uma das crises mais intensas…um tiro, só um teria acabado comigo e toda minha história de vida que viria a seguir, algumas pessoas teriam sido extremamente afetadas por este ato, algumas não estariam vivas hoje. Com certeza, de imediato esse tiro mataria pelo menos 4 pessoas em um curto espaço de tempo…apenas uma bala.
O suicidio é “o assassinato de Deus” (Sto. Agostinho).
Há um referendo no país na próxima semana.
Em função do que aqui tenho escrito vou votar SIM.
O Mal pode estar em qualquer um de nós, e uma arma ajuda um bocado.
Outubro 15, 2005
A vida é nada
Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.
Fernando Pessoa
Outubro 14, 2005
A aparente calmaria
Como passei a usar medicamentos, benzodiazepínicos, os episódios de pânico desapareceram como por enquanto, o que na verdade era apenas uma evolução natural da doença. deixei de dar plantão na unidade de terapia intensiva, pagava a um colega para fazê-lo.
No entanto a ansiedade, permanecia fazendo pequenos estragos, era um medo que era acrescentado no dia a dia, eu fingia que não existiam e permanecia cumprindo o resto das tarefas do meu cotidiano, nesta ocasião, eu ainda possuía um certo controle sobre o que acontecia então, não dependia de ninguém para seguir em frente. Era necessário um esforço maior para prosseguir com a vida, mas nada muito absurdo, me descontrolava raramente.
Essa situação permaneceu até que dos 3 hospitais em que trabalhava, teria que sair de um deles, àquele em que eu havia construído algo do nada, e que exercitava minha especialidade plenamente, era uma opção díficil, mas eu não tinha outra saída, ainda mais depois de tudo que aconteceu. Outras razões de natureza pessoal me levariam a isto.
Uma perda, seja ela de qualquer natureza, na areia movediça em que movimentava era tudo o que eu não precisava…
Ser ou não ser
Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústia_
E, combatendo-o dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono -dizem- extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir -
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá a desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo ele próprio encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte_
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou algum viajante_nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.
(Hamlet-William Shakespeare-LPM Editora)